02/06/2025 | Artigo

Impactos do Protecionismo Norte-Americano nas Cadeias Globais Automotivas.

Não é de hoje que a indústria automotiva se destaca como um exemplo clássico de cadeia de suprimentos globalmente integrada, formada por uma extensa rede de relacionamentos empresariais internacionais, envolvendo múltiplos setores industriais e de serviços altamente especializados.

Esta rede global de suprimentos e serviços detém uma imensa multiplicidade de processos e partes envolvidas interconectadas, desde fornecedores de primeiro, segundo e terceiro níveis, até provedores logísticos, concessionárias e fornecedores de serviços pós-venda.

Na indústria automotiva, os termos “Tier 1”, “Tier 2” e “Tier 3” indicam diferentes níveis de fornecedores, de acordo com sua posição na cadeia de produção. O Tier 1 é o fornecedor que entrega diretamente para a montadora, ou seja, é o fabricante original de determinado equipamento (OEM), que fornece de maneira direta para a montadora. Já os fornecedores Tier 2 e Tier 3 fornecem, respectivamente, peças e matérias-primas para os fornecedores OEM.

Para melhor ilustrar essa dinâmica internacional complexa, vejamos o percurso de um microchip na cadeia de suprimentos: Para a fabricação do microchip, é necessário extrair da natureza o silício bruto em um país “A”. Esse silício é enviado do país “A” para outro país “B”, onde é processado em wafers[1]. Em seguida, os wafers são levados para uma fábrica de semicondutores em um terceiro país “C”, onde são transformados em microchips. Por fim, esses microchips são distribuídos para fornecedores OEM, que os incorporam em sistemas maiores, como unidades de controle do motor, frenagem ou sistemas de infoentretenimento.

Observe que esse fluxo complexo e interconectado de materiais, peças, serviços e procedimentos internos de todas as partes envolvidas, requer organização fina, coordenação precisa e sincronização para que todos os itens sejam enviados e recebidos no tempo certo e local correto, para ao final serem utilizados pelas montadoras.

Essa engenharia de desenvolvimento das cadeias globais de manufatura exige bastante estudo e tempo por parte da indústria automotiva mundial, e leva em conta uma série de fatores para obter a melhor qualidade e o menor custo produtivo de veículos leves e pesados. São eles:

  1. disponibilidade da matéria prima;
  2. custo da mão de obra;
  3.  carga tributária incidente na produção e transporte;
  4.  acordo de livre comércio ou intercâmbio comercial entre países;
  5.  nível de desenvolvimento tecnológico da indústria local;
  6.  legislação ou política governamental de incentivo à inovação e sustentabilidade;
  7.  inexistência de guerras, rebeliões ou conflitos na região.

Conjugar esses e outros fatores e ainda controlar todos os custos de produção nesse ambiente complexo e de ampla concorrência, não é tarefa fácil. Pelo contrário, exige análise constante e realinhamento de trajeto quando qualquer das variáveis foge ao controle.

Percebe-se que a evolução das cadeias globais automotivas é uma construção longeva e resultado de fornecedores especializados e geograficamente posicionados, onde diferentes regiões desenvolveram vantagens competitivas específicas que transcendem fronteiras nacionais, criando sinergias que seriam muito difíceis de replicar no curto prazo, em sistemas de produção puramente domésticos.

Preservar o livre comércio é fundamental para estimular a inovação, fomentar a transferência tecnológica, permitir a eficiência e competitividade das cadeias globais de suprimentos, especialmente na indústria automobilística, onde a complexidade e a interdependência entre fornecedores e montadoras são intensas, viabilizando o desenvolvimento de produtos com maior valor agregado e adaptação às demandas do mercado global.

É nesse complexo contexto das cadeias globais automotivas, que a política tarifária do governo norte-americano promoveu a elevação abrupta das alíquotas do imposto de importação para carros, peças e matérias primas necessárias pela indústria de automóveis dos EUA, surpreendendo todo o mundo, inclusive as montadoras norte americanas.

Na visão do governo Trump, aqueles que pretendem vender nos EUA, devem também produzir nos EUA. É uma nítida política tarifária protecionista, que visa realocar a produção da indústria automotiva em solo norte-americano, sem avaliar com prudência a engenharia que esse mercado impõe aos seus players.

Esse anúncio atabalhoado do aumento desmedido do imposto de importação pelos EUA, acarretou reações imediatas dos mercados globais, atingindo negativamente diversas bolsas de valores no mundo e para praticamente todas as grandes empresas listadas do segmento automotivo. Analistas da indústria preveem que essa tarifação exagerada imposta ao mundo pelo EUA, poderá adicionar milhares de dólares ao custo dos veículos leves e pesados do mercado americano, criando uma pressão adicional aos consumidores norte-americanos que já vêm enfrentando alta de inflação.

Em resposta às tarifas impostas pelos EUA, que chegaram a 145% em alguns produtos, a China impôs tarifas retaliatórias para até 125%, incluindo veículos e autopeças americanas, ocasionando a elevação dos custos para exportadores automotivos dos EUA e dificultando o acesso das montadoras norte americanas ao gigante mercado automotivo chinês.

A imposição sem critério e moderação de barreiras comerciais por intermédio de tarifas elevadíssimas ou quotas extremamente baixas, inviabiliza o acesso de todos os players envolvidos a uma base diversificada de fornecedores globais, impedindo a escolha dos melhores parceiros em termos de custo, qualidade e prazo, aumenta custos e reduz a versatilidade operacional no segmento.

Resumidamente, a continuidade dessa política tarifária Trump de criar artificialmente um ambiente protegido que reduz incentivos para inovação e eficiência operacional, prejudicará não só a competitividade global da própria indústria automotiva americana, mas também obrigará uma reorganização da geografia da produção automotiva global, criando pressões para que as empresas desloquem suas operações de localizações otimizadas e eficientes em direção a configurações orientadas por considerações político-comerciais, o que representa uma mudança estrutural de décadas de otimização baseada em vantagens comparativas regionais.

A integração eficiente das cadeias globais automotivas, facilitada pelo livre comércio, promove a resiliência diante de interrupções e fortalece a competitividade das empresas no cenário internacional, gerando benefícios tanto para os fabricantes quanto para os consumidores finais.

Por fim, espera-se que o recente arrefecimento das tensões e retaliações recíprocas entre EUA, China, México e Canadá preserve a filosofia de livre comércio que orientou a indústria automotiva nas últimas décadas sob pena de se desconstruir uma interdependência tecnológica e operacional que transcende fronteiras nacionais pelo compartilhamento de conhecimento técnico, processos de pesquisa e desenvolvimento, padrões de qualidade globalmente coordenados, prejudicando tanto as montadoras, fornecedores e consumidores finais.

[1] – Na fabricação de microchips, wafers são finas fatias de material semicondutor, geralmente silício, que servem como base para a construção de circuitos integrados.

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